Nó de víboras, François Mauriac — Edição brasileira: José Olympio, 2024
Como você se sentiria se soubesse que passou os últimos quarenta anos vivendo uma vida de infelicidade, ciúme, desconfiança e ao lado de uma solidão sempre à espreita?
Esse é o ponto inicial do romance de François Mauriac, autor francês agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura de 1952. A citação de Santa Teresa d’Ávila escancara logo no início o caráter dúbio da obra: “Deus, considerai que não ouvimos a nós mesmos, que não sabemos o que queremos e que nos afastamos infinitamente do que desejamos”, sendo a voz da narração, sem qualquer inclinação para a crença.
A premissa é simples, ou quase: um homem, Louis, escreve uma longa carta à sua mulher, Isabelle Fondaudège, conclamando toda a fúria, o ódio e o rancor que ele carrega por ela, pelos filhos e por toda a sua vida familiar. Mas, como que revelando sua covardia, a carta só será descoberta depois de sua morte, escondida no alto de um armário, para que a mulher a encontre depois que ele já tenha morrido, sem que haja qualquer possibilidade de confrontação.
O contexto exaspera o autor da carta, o advogado bem-sucedido que, doente, pressente a morte próxima. E a carta é sua última e mais potente arma contra a desgraça que ele pensa ter se transformado sua vida. Antes de tudo, Louis se sente um impostor em sua própria existência, aceita e convive bem com sua falta de algo atrativo, com sua infelicidade natural, que ele carrega desde a infância. Essa percepção se reflete na esposa, em sua avareza, em sua inclinação ao confronto e nos filhos. Ele pensa estar sempre cercado de inimigos.
Tal como Bentinho, em Dom Casmurro, romance de Machado de Assis, a narração feita em primeira pessoa é absolutamente não confiável, como num primeiro momento em que cita um pensamento, uma advertência que não recebera: “Por mais que vivas, não terás outra alegria no mundo senão a destas poucas horas. Saboreia-as até o fundo, porque, depois disso, nada te resta. Essa primeira fonte encontrada é também a última. Mata a sede de uma vez por todas: não beberás mais.” (página 46), que logo abre as cortinas para uma sequência de acusações e, a todo instante, suscita uma considerável parcela de perguntas. O que diria sua esposa sobre o velho marido rancoroso? O que diriam os filhos deste homem mal-humorado, sempre de cara fechada e com uma ironia que parece não ter fim? O ressentido é, antes de tudo, uma vítima de si mesmo. Tudo e todos têm culpa por suas fraquezas e por sua infelicidade. Dessa forma, a vida fora desta carta acontece: seus filhos crescem, sua esposa envelhece como ele, nascem os netos, crescem os netos, e seus desejos e aspirações de futuro estão veementes. Não tão perspicazes quanto o próprio Louis, mas, assim mesmo, a família não parece compartilhar do ódio de seu patriarca. Pelo menos não na mesma altura. E ele caminha a passos largos para o escuro do puro ressentimento.
Na parte final do livro, acontecimentos subvertem a linha narrativa, alterando sua análise da vida. Gradativamente, ele passa da fúria e do desprezo para uma espécie de redenção de si mesmo. Percebe algum amor pela esposa. Um amor amargo, que ele acredita não ser correspondido. Assim, acreditando ter desperdiçado toda a sua vida, essa longa e tão sofrida existência, auto infligida na maior parte do tempo, mas também rodeada de incertezas e sofrimentos, Louis abre mão, num ímpeto, de sua mais eficaz ferramenta de toda a vida: o dinheiro. Junto dessa infeliz noção tardia do que realmente importa na vida, ele é carregado por aquilo que o transformou no homem desta carta.