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Contos/1 edição/ 164 páginas/ Português/ Livro novo/ 14x21/ Brochura

 

“Quem não tem teto de vidro atire a primeira pedra” é a primeira frase da música de Pitty Teto de Vidro, que marcou minha vida e de muitas outras meninas e meninos que cresceram nos anos 90 e adolesceram nos 2000. A letra de Pitty remonta à intertextualidade milenar dos ensinamentos de Cristo, quando ele supostamente defendeu uma mulher, pária social, em vias de ser apedrejada por uma multidão enfurecida. Lemos essa história da “mulher adúltera” pela pena de um terceiro, já com Gente pedra, gente vidraça, Thais Steimbach dá voz e ecoa as palavras de gente como aquela mulher, gente cujas vozes dificilmente ouvimos na literatura.

Não é mais um homem falando sobre uma mulher apedrejada, uma criança abusada, uma menina que se recusa a ser invisível, ou moça cujas palavras lhe saem da boca como rios pela pele após um silenciamento de anos, ou mesmo um casal gay que precisa enfrentar a violência e hipocrisia de uma sociedade desigual e moralista; são os sujeitos das margens que contam suas histórias, se tornam agentes, promovem e refletem sobre a ação.

Nessas páginas nos apaixonamos, somos inundados de raiva, a raiva motor da indignação contra as injustiças e amarras do patriarcado e do racismo, que nos dividem e fragmentam nossos sonhos, mas também somos acolhidas com o recurso especulativo da mudança revolucionária, da quebra do paradigma, do amor como força motriz. E nesse resgate poético e belo, deixamos de ver vítimas e enxergamos seres humanos em toda sua complexidade, beleza e feiura, amor e dor. A linguagem de Thais é ao mesmo tempo simples e bela, poética e cortante como faca. Acho impossível passar por esse livro sem se sentir movida, sem reconhecer a realidade brasileira, suas dores e esperanças que tanto fazem eco a questões milenares e universais da humanidade, das mulheres, crianças, e outros grupos.

A literatura pode ser qualquer coisa esses dias, mas quando ela é sublime como esta, ela afeta sem ser afetada, ela gera reflexão sem ser panfletária, ressignifica e se apropria, como fez Thais, desse ensinamento atribuído a Cristo, ressignificado por Pitty em seu rock, poetizado nessas páginas em histórias de gente como a gente, digna, pedra e vidraça, viva e insustentavelmente bela.

Suzana Veiga, Doutora em História